sábado, 21 de outubro de 2017

A PANTERA 1 - 9

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)
1.
Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam.
Em frente, o lago verde se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, imóvel, como uma estátua nua, lança parada, ar parado, silêncio morno, calor úmido, mormaço da tarde.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro? Por que de nada me não quero lembrar? A espera do porvir, a  guerra final.

Nesse momento o som de arco perfura, sei que quando ela atira não erra. 
Jara é jovem. Bela. Ombros largos, pernas longas, barriga torneada, sexo exposto.
Está comigo há tempo. Silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante. Ou inimiga, não sei. Os seus chefes permitiram que ela ficasse aqui comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu. Apareceu, ficou. Vieram guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem, louco.  Eles desapareceram. Não olharam para mim.
Agora Jara é uma sentinela, está aqui para me alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virão os inimigos? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o inimigo. Mas minha letargia não agressiva, minha apatia, minha indiferença fez Jara permanecer em paz.



A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)
2.

Não sei há quantos anos moro neste casebre.  Chovia dentro, mas Jara o reforçou. Uma árvore a cobre, com numa rede de ramagem ampla. À noite, entretanto, sinto-me ameaçado. Os animais noturnos nos espiam. O cântico da mãe da lua aterroriza. O urutau canta três oitavas lamentosas. Mas eu consigo dormir, na minha rede bem alta. O silêncio é pesado, amplo, negro, enorme. As estrelas, vivas. Felizmente não há mosquitos nesse rio. Mas um frio intenso vem de dentro do calor da noite. Ventos sinistros do alto dos Andes. O vento vem sobre o leito do rio, sob as estrelas, como uma coisa palpável, branca.

Esta noite experimentamos novamente a sinistra presença noturna daquela pantera negra.  Dormimos como sobre as assombrosas minas do Eldorado. Ouço gritos, gemidos finos, assobios. Miracã-uera cemitério. Sinto que moro em cima de um cemitério. Mas o Eldorado nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo. Por aqui, a floresta aparece como um grande mapa. Nunca ninguém, nunca nenhum ser humano, nenhum civilizado pisou aqui nesses solos encharcados.
Jara não fala, é uma companhia de nada, silenciosa. Não sei de onde veio, não quem é. Às vezes, temo que ela pode matar-me, enquanto durmo. Às vezes fazemos amor. Ela compreende o meu estado, a minha depressão. Ela então acende uma espécie de cachimbo de ipadu, uma espécie de coca. E sopra na minha face. Me obriga a mascar, pondo na minha boca algumas folhas amargas, misturadas com a cinza de seu cachimbo. São cinzas da palmeira motaçu, acrescidas de um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, eu sinto uma embriaguez deleitosa, uma súbita euforia, e às vezes adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, me recupero.
Mas ela é uma desconhecida. Mas eu a amo. Como aqui não há mais ninguém, nenhuma censura, eu a amo de todos os modos. Ela canta a sua canção selvagem. Canção de guerra, de morte. Ela pressente o perigo. O incompreensível perigo.


A PANTERA (3) –
ROGEL SAMUEL
E assim Jara me impeliu como se quisesse algo, como se pressentisse não sei o que, e saímos dali pelo caminho alto e selvagem, naquela noite sem estrelas, naquele mundo sem nome, sem traço, na morte acreditando, que eu sentia, às margens de um igarapé que descia veloz, dirigindo, quando Jara me fez parar para então, baixando os olhos, fui vendo uma flecha especada, mas ela, serena e bela, um gesto me fazia, sem vozes, sem medo, o arco em punho:
- Por aqui, por aqui, - Jara dizia -, e enquanto assim dizia a terra estremeu num solavanco, que foi tão forte que do medo da terra lacrimosa rompeu um vento e um clarão avermelhado, como se de um som profundo, um gemido das profundezas, tirado por aquele hórrido estampido, estremecendo as árvores.
Mas Jara continuava calma e parando perscrutou por saber por onde se achava a passagem e o caminho e a tudo no lugar sinistro se mostrava atenta.
- Temos de partir, temos de partir, - me disse ela, na sua linguagem selvagem, na força daquele vale tenebroso:
- Sim – disse ela, nos afastemos da treva do mundo – ela me disse e enfiando-se por uma subida: “Eu subirei primeiro, tu segundo”.
Tornei-lhe, vendo a palidez sua pensei:- “Como hei-de ir, se é de espanto dominada, quando a segurança e conforto estou dela esperando”?
- “Vamos, - disse-me ela, sem se deter – essa jornada exige pressa, porque o abismo a estreitar-se já começa -  e escutei, vibrando no ar do espaço inteiro os murmúrios longínquos de bombas que estrugiam, e eu vi que no meio da selvagem terra nós fugíamos de uma guerra, sem parar, na selva penetrando e longe ainda divisando o hemisfério das trevas que alumiava, dali distante de onde nos achávamos, mas não tanto que não discerníssemos em parte uma luminosidade brilhando longínqua e o rumor que nos vinha, como que fugíssemos cercados por sombras inimigas e malévolas.

A PANTERA 4 - ROGEL SAMUEL
Chegamos junto, chegamos a uma íngreme pedra de umas grandes árvores cercada, cingida de um pequeno e claro riacho, que atravessamos com os pés nas pedras e caminhamos, graves, os nossos olhos meneando para aquelas árvores de aspecto majestoso, e com voz suave Jara me falava, mas eu o que ouvia não entendia, enquanto subimos aquela alta pedra pelos galhos, sobre um viso nós subíamos, e de lá, de cima, divisávamos dessas aves o bando numeroso, de verde esmalte - a guerreira me dizia e me indicava, egrégias aves inda me extasia o prazer com que vê-las exultava, relato não me dando fazer plena de todas, a comparsa então se dividindo por outra vereda comigo na trilha, do ar sereno ao ar que treme, vindo me diz, mas na sua língua adversa, que traduzo como: “Aqui chegamos, onde e quando a luz do dia não mais brilha e o espaço menos largo se compreende, mas onde o pungir da dor é mais profundo”.

E aqui quedamos, armando de enorme galho nossas redes, a esperar que da noite as sombras nos cobrissem e o sono, misterioso e leve, nos tomasse.

Mas logo conseguimos ouvir os infernais lamentos da onça negra que rugia como um mar combatido de ventos, de tormenta ou furor nos perseguindo, nunca abatida que perpetuamente nos seguira em seu embate, recrescida, que à borda daquele abismo precipitava em ais, soluços, rompendo com blasfêmias, ouvindo então de Jara me dizer:  não se atemorize, pois como nós ela também está temendo ao capricho do vento, sem conforto neste longa série de avanços com seu grasnido assim no gemer seu que não descansa com que o vendaval fustiga denegrida.

E em tumulto as invisíveis aves da noite volteavam ao capricho dos ventos, que as trazia no conforto e não lhes fazia  mais agonia, como nos ares longa série de abutres avançando por trás do tufão de sombras, em vão pelo seu pavor como saídos da tumba de demônios.

E após aquelas aves foi o silêncio feito, que perguntei: “Que aconteceu agora?”

– E Jara respondeu com um suspiro:

“Cruel destino, triste congitar! Procederam do mar do fim do mundo”.

Disse-lhe eu: “Oh Amiga, teus martírios me angustiam”, pois tinha nascido a flor do nosso afeto, como namorados éramos a sós naquele monte, e um ponto só nos deu guarida, pois a boca me beijou estremecida que tombei como corpo morto, mas:

“Espera!” – me disse ela, subia ao alto colina onde da árvore alta pode observar uns novos clarões que vislumbrava.


Enquanto que eu da pantera a respiração ouvia por toda parte ao longe e ao lado.


A PANTERA 5

ROGEL SAMUEL

“E então” – disse-me ela – “vou em busca de alguma caça”. Mas da pantera o suspiro rouco ouvindo: “Não” – me diz – “se desvaneça o susto. Ela nada fará contra você, em si mesma consome o seu furor injusto” e, com a flecha uma espécie de pássaro abatendo que no alto voava que baqueou por terra a ave abatida, - mas de repente, com uma onda do mar se embatendo, e quebrando-se espumante, assim uma turba de aves negras se albaroa, aves em cópia, quase do céu escurecendo parte, nunca vistas antes, fardos de um lado e outro em grita ingente, rolando com suas asas ofegantes, como de um grande mal temidas e em volteios sem rumo assim no teto em círculo volteando que iam ao ponto oposto de todo o espaço nos semicírculos: - “Que são?” – a Jara perguntei, “que razão há para aqui estarem?” E ela respondeu: -“Não sei, de algo muito terrível estão fugindo!”.
No dia seguinte me acordou ela e disse: “Desçamos agora e vamos esquivos, nossa demora aqui é perigosa”. E nossos passos da árvore onde nos abrigamos até uma fonte onde bebemos. Ali de uma fenda as águas brotam como se a alguma torrente e a sede saciamos e ao longo do seu curso nós baixamos, por caminho tão diversos nos movendo, até uma lagoa deparamos junto à encosta do triste ribeiro, que notamos dali seguira para um pântano, onde a tristeza morava, e portanto atravessamos e voltamos a subir o que seria uma vende encosta em direção ao vértice de um lugar mais fresco e longínquo da mais alta montanha.

A PANTERA 6.
ROGEL SAMUEL

Acrescentar eu devo que prosseguindo mudos naquela direção o dia inteiro do pico ainda estávamos distante ao anoitecer; e não mais senti a presença negra da pantera nos perseguindo, quando os olhos ao céu dirigindo vemos clarões brilhar como relâmpagos mudos e lumes dois ou três que a terra estremeciam e aí vejo que de Jara os olhos se assustaram, e ligeira logo se fez. E assim deparamos com uma pequena planície onde havia montículos de terra que pensei serem túmulos rasos. Mas “não”, disse-me Jara (pois se fossem os animais já teriam descobertos), e encontro sacolas de dinheiro e mochilas com armas e vestimentas, sapatos e botas e comida tudo envolvido em plásticos. Eu me aproprio das utilidades, visto-me de casaco e botas, encho um saco de maços de dinheiro, armas e um cantil. Ao que um terrível urro nós ouvimos da pantera que chegava que toquei nas armas ao que Jara me conteve, e já ela vestida de soldado e armada de faca e de fuzil me parecia protegida. E depois de revistar todos os montes e de umas mochilas que nos apropriamos, assim Jara partiu e eu a segui somente ao primeiros passos logo sentimos o peso da carga recebida, e sendo assim Jara e eu entramos na floresta que rara se fazia, e caminhamos por alguns dias subindo a encosta da montanha lentamente e passando ao mais alto, mas Jara revelava que aqueles sítios todos antes conhecera.
Do medo a cor que o gesto me alterara ao ver que aparecia, na ponta da planície, marchando célere em nossa direção, aquela pantera mas Jara, como escutando, espreita e me diz: ”quer ela nos atalhar e nos levar nesta direção” que aponta naquela direção antiga e de subida, - “é mister vencer nesta porfia”, - e da pantera a marcha acelerada nos adiantou e de lá saímos, buscando o alto da montanha, que é raro o parecer, e um ensejo de nos fazer guiar pelo caminho que entre abismos nos comunica. Ali, porém, já fui que a inimiga pantera constrangia-nos a fazer essa jornada. Que pensei, e pensando disse para Jara, que agora poderíamos fazer, para das sombras nos tirar dos seus precitos, com as armas de que agora dispúnhamos poderíamos a fera abater a tiros: “Esta é a pior solução” - dizendo ela, voltou-se para mim – e usando uma expressão nova: “esforça-te, querido, eu também sei o caminho que da grande batalha vai nos afastar” – “este paul que a fera cheira é o circundo da guerra e o tormento que de entrar já não podemos sem ira” – e não me lembro o que mais disse o pensamento e o olhar pondo no cimo chamejante que os olhos me prendia, vi que estava atenta, pois de lá longe o aspecto de horripilante explosões sucessivas que o chão estremecia, que com as unhas a pantera a terra arranhava e com suas patas o solo rebatia e com tal brado que à guerreira me acerquei de pavor cheio. Ela volta a face de fúlgida luz o rosto farto conserva a calma a encarar-me, transformando-se numa sorte de deusa e as mãos juntando às minhas mãos e os olhos no fundo dos meus olhos a amparar-me dessa arte, e logo um tufão distante fremiu impetuoso que de ardores explosivos se cercando, sem pausa fere a terra, que se abria como em leques de sonoridades entre nuvens de pó alevantando e após o mundo se cobriu de um estranho silêncio, mudo e quieto, mundo derradeiro e deserto que vem da insânia rara.


A PANTERA 7

ROGEL SAMUEL

À medida que avançávamos então pelo caminho sem nos falar, formos encontrando sepulcros desiguais e incertos,  restos dos exércitos destruídos, esqueletos podres, cadáveres em tanques de excrementos, mas de modo mais agro o solo todo coberto de pisadas e rastros, e tampas e terríveis que uns eram túmulos outros eram muros e trincheiras, - o forte cheiro da morte inda ali restava.
E entra a guerreira por vereda estreita, entre o muro e os martírios vai seguindo e eu após ela, pois a seus passos os meus passos se continuam, passando entre as sepulturas descobertas, os corpos estragados, comidos de bichos, os corpos em decomposição, a vida se acabando.
Mas ouço novamente aquele som, de súbito saído do horizonte, seguido a um clarão que tanto me horroriza, que à Jara me abracei, apavorado, tremido. E na sombra eu tinha já fitado o vulto da pantera perto de uma tumba aberta. A guerra crua faz na gente o espanto e com ansiosos olhos olhei os lados, a ver se algum guerreiro sobrara ainda vivo para nos atacar. Súbito ergueu-se um pássaro em gritaria, quando da pantera se viu ameaçado.
Eu começava a lembrar alguma coisa do que fui, do que fiz, pois não sem motivo estava eu por ali, pois daquela guerra não estava de juízo certo.
E então, se bem percebo, ao fundo vejo um precipício. Mil jazem por aqui, pensei, e as almas mortas nesses ares esvoaçam, os corpos desciam o vale horrendo que odientos vapores exalavam.
Foi quando fomos atacados por uma tribo desconhecida, com muitas flechas e gritos lancinantes, que mais tinham o intento de nos afastar que de matar, pois nós não víamos ninguém no dentro da floresta.
Mas eu comecei a disparar os tiros e os gritos silenciaram e as flechas acabaram.


A PANTERA 8 (ROGEL SAMUEL)
Passaram-se vários dias sem que encontrássemos a pantera, e por isso julgamos que ela tinha sido morta na batalha, quando vimos uma lagoa ingente, açoitada dos ventos da montanha, como o que flagela o vento e ao rumo minhas ideias se volveram.
Mas ali buscamos beber.
Jara pode pescar estranhos peixes que comemos. “Mas andemos” – disse-me Jara, “prossigamos nossa empresa, vem no horizonte a noite assomando, e mais além a rota da passagem se faz escura”.
Passamos apreensivos aquela noite e quando acordamos, no meio da campina, vejo, feroz, um monstro desconhecido, como quem lá estava à espera e atento à nossa morte, que à vista se fazia pavoroso. Estávamos num caminho quase escondido, na borda de uma ribanceira, de forma que o monstro, que era um búfalo ou um touro, nos fechava e ameaçava avançar e então Jara disse: “Rápido demandemos a entrada da passagem” e eu cismava: “estamos agora em ruína”, que do horrendo monstro eu via a ira já vencida. “Deves saber que, uma vez descendo ao extremo desse bosque, lá em baixo esta rocha não está como estás vendo”. Mas desse vale temi tanto a profundeza, que pensei cairmos no profundo.
Foi então que vi que minha amiga nos conduzia por uma vereda estreita de pedra de onde víamos o vale e um rio, no fundo da distância. E uma cava divisei por onde passar não podia um animal daquele porte, que arqueava no seu plano inteiro, como quem quisesse que do mal se afastasse. E no espaço em que o penhasco dá passagem veio o monstro descer nos vendo mais acima. O arco e os arremessos preparando estava Jara, quando um brado de longe nos soara, que despertou o monstro para trás, olhando. Senti logo a pantera vindo, como quem vingara quem fatal lhe fora.
Aqueles dois monstros logo se encontraram, e a guerra entre eles iam começar, em nome do que os passos meus em tão medonha estrada continuaram. E Jara volveu-se à destra, segurou-me, e disse: “Não olhe para trás, vamos descendo para o caminho mais largo, para sairmos daqui o quanto antes”. E partimos naquela companhia das ondas de horror que no ar subiam, daquele agudo estridor que vinha ao longe daquelas duas feras em luta de morte que se enfrentavam, e mesmo de longe o sangue me faltava.
Não estávamos ainda livres disso quando por um bosque penetramos, de vestígios e de traços não marcados, sem frondes verdes mas escuras e cujos galhos nodosos e espinhentos tinham flores e frutos venenosos.
Ainda soavam nas selvas os uivos dos insanos ferozes inimigos que se estavam matando, quando Jara me alertou: “Não encontraremos daqui em diante lugar onde com calma possamos descansar, pois essas matas por aqui são possuídas de estranhas torvações”.
E asas negras rodopiando nos céus, garras afiadas ameaçando, apareceram e Jara me insta de segui-la, e dali a curta distância nos afasta das aves cujos sons ouvíamos, quando um rio aparece descendo a montanha, de águas geladas retombando e caindo pelas encostas.
Ah, por meus deuses, foi quando ouvimos o grito estrídulo da besta, que de longe se aproximava.
Mas muito tempo caminhamos em silencio para nos afastar do animal sangrento, quando chegamos à beira de um penhasco. De uma corda eu me achava então cingido, que a tirasse Jara me dissera, e eu logo a entreguei como ela prescrevera. Então ela à direita se voltando à borda do abismo infando: “Surgirá, em breve, novo perigo, trazido pela besta dos infernos. Precisamos logo sair”. E assim começamos a descida, lentos e cautelosos, protegidos pela corda, mas ao longe antevimos a fera de horrenda cauda e bafo imundo. E logo atravessamos para o outro lado: “Convém seja o caminho desviado da senda” disse-me ela. E seguimos pelo lado direito por duas horas de lenta e dolorosa caminhada até bem longe daquele abismo ingente.



A PANTERA 9 (ROGEL SAMUEL). 
A glória do sol por fim aparece. Ainda dormindo estava e eis noto um vulto perto de mim. Era Jara, e assim que a vi se alumiaram meus pensamentos e uma aura de calma que é maravilha ainda esteja vivo. A força do alto da colina nos impele, disse-me ela. Não nos retenha. Vamos, pois, cingindo o meu braço sem demora. Aqui tornar inútil nos seria, vamos ao sol que surge que é o melhor passo para subir do monte a penedia. E eu ergui-me, então, sem mais demora, e em silêncio, os olhos fitos no semblante de Jara, amparei-me do seu braço. Ela agora mais bela me aparecia. “Comigo vem, disse-me ela”, linda e luminosa, “vamos seguir adiante”. Fugíamos ante a alva a sombra matutina, já nos ficava aos olhos descobertas as oscilações da estrada. Pela planície andamos que deserta parecia, chegando àquela parte onde o sol não pudera ainda secar o orvalho sobre a relva. Jara brandamente as mãos abriu e o seu movimento noto e compreendo: vimos a passo lento que se aproximava a pantera – Jara me abraçou, dizendo: “Não tema, ela está calma e dócil”.
Resplandecia já o sol no horizonte quando a perdemos. Algumas árvores apareceram na nossa frente, algumas ostentando doce fruto que colhemos. Uma luz pelo espaço vi que deslizava qual voo de ave igual que seja. Olhei de novo contemplando e logo abaixo outro vulto aparecia de igual cor e brilho assinalado. Mas Jara então bradou, como quem já aquelas coisas conhecia: “Curva os joelhos e baixa a cabeça, respeitoso, eis dos deuses  mensageiros! De agora em diante hás de ver outros – uma voz cantando justamente pudemos ouvir e se tornou, como veio, incontinente.
Ficamos, de repente, atordoados.
E avistamos uma montanha luminosa.

A PANTERA 10 (ROGEL SAMUEL).

“Que é aquilo?”, pergunto, mostrando o brilho no alto da montanha. “Não sei“, disse Jara, e me abraçou. 
Mas seguimos aquela estrada sem saber aonde nos levara. E enquanto aquela fuga pela planície as sombras nos impelia, à minha amiga fiel mais eu me cingia. Como sem ela pudera prosseguir? Quem para alçar-me esforço me daria?
Assim chegamos àquela pequena, deserta e triste cidade que aparecia. E logo pudemos trocar nossos uniformes de soldado por roupas novas, comprei malas, fomos a um hotel onde tomamos banho e, sabendo que havia um aeroporto perto, logo nos dirigimos para lá. 
No pequeno aeroporto pagamos um aeroplano que nos deixou numa cidade maior.
Ali comprei um carro (pois só agora eu vi que Jara trazia duas grandes bolsas cheias de dólares do cemitério do exército), e de madrugada, como que escondidos, partimos para o sul.
Viajamos o dia inteiro e à noite nos abrigamos num hotel onde adormeci no colo da minha amiga, que ficou acordada, protegendo-me. 
Quando acordei estava bem melhor e logo sem problemas partimos, descendo o país em direção Sudeste, dormindo nos hotéis da estrada e foi assim que, depois de vários dias chegamos a uma grande cidade, onde comecei a tratar dos documentos de Jara.

A PANTERA 11 (ROGEL SAMUEL)
Ficamos no meu apartamento de sala e quarto que um amigo cuidava para mim e, quando os documentos de Jara ficaram prontos, embarcamos para aquela ilha, onde nos hospedamos num chalé. Quando uma amiga apareceu, fomos com ela para a sua casa no meio da floresta. Lá soube de outros parceiros meus que estavam longe, dispersos no mundo ou mortos.
Depois, Jara e eu nos mudamos para uma cabana isolada, onde moramos por algum tempo. Lá cozinhávamos e caminhávamos ao redor.
Foram dias calmos e felizes.
De lá podíamos avistar o mar e o horizonte distante.
Depois voltamos para o centro da ilha, onde nos demoramos mais.
 De lá partimos para uma cidadezinha de barco e nos dirigimos para a enseada, onde ficamos morando num barco.
Até voltarmos para a cabana.
Na cabana tudo era paz.



A PANTERA 12

ROGEL SAMUEL

No Natal descemos até a praia. Mas não paramos muito ali, pois fomos para a vila de pescadores, onde nos deixávamos ficar nas dunas, diante do mar. Ficamos hospedados numa pousada que não tinha boa luz elétrica, e à noite as luzes de vela davam ao ambiente uma atmosfera romântica, ao som do mar.
Ouvíamos todas as noites, no bar, a voz daquela cantora de jazz, em fita-cassete. Era uma vila de pescadores, sofisticada e secreta. Havia muitos barcos que às vezes nos levavam para as ilhas.
Poderíamos morar definitivamente lá, não fosse minha precaução de não chamar atenção sobre nossa presença.
Por isso saímos de lá para o meu apartamento, pois nosso dinheiro acabava (não usávamos cartão de crédito ou cheque, mas dinheiro vivo) e partimos para uma cidade diferente, nas montanhas, cheia de flores, onde muitas vezes andávamos de madrugada no parque, vendo o luar, sentindo o perfume das árvores no ar.
Na época abria a estação das flores bailarinas, com  vitrilhos brilhos cintilos.
Sob a lua a gente navegava e nas esteiras acesas se abriam leques, madeixas deusas de vespas ledas de seu lácteo almíscar. Aquilo era um palácio e o verão nos seus bronzes sobre as estátuas abertas emitia suspiros giros e engasgos com essas asas de aço sobre fontes, passos da irmandade fecundada com o pulso das estrelas. Da janela víamos a torre da capela, entre as árvores, no sopé da montanha. As magnólias reverdeciam. O resto era a floresta. Que seria aquela casa no meio das árvores da floresta? Uma grande torre de nuvens se erguia no céu, parecendo mais alta do que as mais altas montanhas. Um aeroplano cruza o espaço azul. De lá, quando o céu era limpo e claro, se podiam ver os vales e as montanhas, ao longe.
Foi quando li num jornal a notícia de que a polícia tinha descoberto e prendido um companheiro nosso. E prisão significava sequestro, tortura e morte.
Voltamos e entrei de madrugada no meu apartamento, de onde retirei todos os documentos e tudo transferindo para mais dois cofres bancários em nome de Jara.
E partimos para o exterior, saindo do país de ônibus, - eu tinha conseguido passaportes, vistos e um cartão de crédito internacional em nome de Jara, que ninguém conhecia, e partimos sem problemas, atravessando a fronteira por terra e viajando para Sydney pela Argentina, num voo transpolar, com conexão na Nova Zelândia. 
Em Sydney hospedamo-nos no Sullivans, Oxford Street 21, em Paddington. A vida noturna da cidade, pubs, clubs nos distraiu. Visitamos a exposição de Sebastião Salgado ali.  Sydney era a capital da fotografia. Havia um erotismo no ar. Respiramos jovialidade e democracia. Eu queria morar lá, de vez, com Jara. Não havia crimes, nem violência, em Sydney. Culturas variadas em harmonia. Fraternidade universal. Em Paddington estávamos em paz. Ouvimos a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House, com a Orquestra Sinfônica de Sydney.
Mas depois de um mês fomos para Katmandhu, onde permanecemos um ano.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

A PANTERA (3)



E assim Jara me impeliu como se quisesse algo, como se pressentisse não sei o que, e saímos dali pelo caminho alto e selvagem, naquela noite sem estrelas, naquele mundo sem nome, sem traço, na morte acreditando, que eu sentia, às margens de um igarapé que descia veloz, dirigindo, quando Jara me fez parar para então, baixando os olhos, fui vendo uma flecha especada, mas ela, serena e bela, um gesto me fazia, sem vozes, sem medo, o arco em punho:
- Por aqui, por aqui, - Jara dizia -, e enquanto assim dizia a terra estremeu num solavanco, que foi tão forte que do medo da terra lacrimosa rompeu um vento e um clarão avermelhado, como se de um som profundo, um gemido das profundezas, tirado por aquele hórrido estampido, estremecendo as árvores.
Mas Jara continuava calma e parando perscrutou por saber por onde se achava a passagem e o caminho e a tudo no lugar sinistro se mostrava atenta.
- Temos de partir, temos de partir, - me disse ela, na sua linguagem selvagem, na força daquele vale tenebroso:
- Sim – disse ela, nos afastemos da treva do mundo – ela me disse e enfiando-se por uma subida: “Eu subirei primeiro, tu segundo”.
Tornei-lhe, vendo a palidez sua pensei:- “Como hei-de ir, se é de espanto dominada, quando a segurança e conforto estou dela esperando”?

- “Vamos, - disse-me ela, sem se deter – essa jornada exige pressa, porque o abismo a estreitar-se já começa -  e escutei, vibrando no ar do espaço inteiro os murmúrios longínquos de bombas que estrugiam, e eu vi que no meio da selvagem terra nós fugíamos de uma guerra, sem parar, na selva penetrando e longe ainda divisando o hemisfério das trevas que alumiava, dali distante de onde nos achávamos, mas não tanto que não discerníssemos em parte uma luminosidade brilhando longínqua e o rumor que nos vinha, como que fugíssemos cercados por sombras inimigas e malévolas.

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)


1.
Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam.
Em frente, o lago verde se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, imóvel, como uma estátua nua, lança parada, ar parado, silêncio morno, calor úmido, mormaço da tarde.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro? Por que de nada me não quero lembrar? A espera do porvir, a  guerra final.

Nesse momento o som de arco perfura, sei que quando ela atira não erra. 
Jara é jovem. Bela. Ombros largos, pernas longas, barriga torneada, sexo exposto.
Está comigo há tempo. Silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante. Ou inimiga, não sei. Os seus chefes permitiram que ela ficasse aqui comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu. Apareceu, ficou. Vieram guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem, louco.  Eles desapareceram. Não olharam para mim.

Agora Jara é uma sentinela, está aqui para me alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virão os inimigos? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o inimigo. Mas minha letargia não agressiva, minha apatia, minha indiferença fez Jara permanecer em paz. 

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)



A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

2.

Não sei há quantos anos moro neste casebre.  Chovia dentro, mas Jara o reforçou. Uma árvore a cobre, com numa rede de ramagem ampla. À noite, entretanto, sinto-me ameaçado. Os animais noturnos nos espiam. O cântico da mãe da lua aterroriza. O urutau canta três oitavas lamentosas. Mas eu consigo dormir, na minha rede bem alta. O silêncio é pesado, amplo, negro, enorme. As estrelas, vivas. Felizmente não há mosquitos nesse rio. Mas um frio intenso vem de dentro do calor da noite. Ventos sinistros do alto dos Andes. O vento vem sobre o leito do rio, sob as estrelas, como uma coisa palpável, branca.

Esta noite experimentamos novamente a sinistra presença noturna daquela pantera negra.  Dormimos como sobre as assombrosas minas do Eldorado. Ouço gritos, gemidos finos, assobios. Miracã-uera cemitério. Sinto que moro em cima de um cemitério. Mas o Eldorado nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo. Por aqui, a floresta aparece como um grande mapa. Nunca ninguém, nunca nenhum ser humano, nenhum civilizado pisou aqui nesses solos encharcados.
Jara não fala, é uma companhia de nada, silenciosa. Não sei de onde veio, não quem é. Às vezes, temo que ela pode matar-me, enquanto durmo. Às vezes fazemos amor. Ela compreende o meu estado, a minha depressão. Ela então acende uma espécie de cachimbo de ipadu, uma espécie de coca. E sopra na minha face. Me obriga a mascar, pondo na minha boca algumas folhas amargas, misturadas com a cinza de seu cachimbo. São cinzas da palmeira motaçu, acrescidas de um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, eu sinto uma embriaguez deleitosa, uma súbita euforia, e às vezes adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, me recupero.
Mas ela é uma desconhecida. Mas eu a amo. Como aqui não há mais ninguém, nenhuma censura, eu a amo de todos os modos. Ela canta a sua canção selvagem. Canção de guerra, de morte. Ela pressente o perigo. O incompreensível perigo.